Etiquetagem de Edifícios já é Lei e será obrigatória em 2014

Fonte: DN Online 13.05.2012

Rio Grande do Norte – Sabe aquelas etiquetas coloridas existentes em toda geladeira ou aparelho condicionador de ar? Elas atestam o nível de eficiência energética dos equipamentos eletrônicos e, consequentemente, uma redução do impacto ambiental. Afinal, só compra aparelhos “ineficientes” o consumidor que queira pagar mais cara a conta de luz. Esses equipamentos considerados eficientes são “sustentáveis”, digamos assim, para se usar uma palavra da moda.

Em breve, os edifícios é que serão etiquetados, sejam eles verticais ou horizontais, altos ou baixos, residenciais, comerciais, públicos ou de serviços. A pessoa que comprar um apartamento, por exemplo, saberá se o edifício tem eficiência energética ou não. A legislação em vigor determina que a mudança levará pelo menos mais três anos, tempo necessário para adaptação das pesquisas e regulação do mercado, mas as pesquisas já estão em pleno vapor.

Significativa colaboração para a concretização dessa nova realidade está sendo dada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É no laboratório de Conforto Ambiental (Labcon), que trabalham os 12 consultores e pesquisadores e 60 bolsistas responsáveis pela contribuição ao projeto de consolidação da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE), nome oficial do instrumento que dirá os índices de eficiência energética dos edifícios. No caso da UFRN o Labcon conta com assistência administrativa da Fundação Norte-rio-grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec).

Os recursos para a pesquisa giram em torno de R$ 5 milhões. Tudo isso só é possível graças à Rede de Eficiência Energética em Edificações (R3E), criada pela Eletrobras e que conta com doze laboratórios parceiros em várias universidades brasileiras – incluindo a UFRN e entidades importantes como UnB, UFMS, UFAL, UFSC, UFF, Unicamp e UFPA, entre outras.

A rede nacional, por sinal, é coordenada pelo professor da UFRN Aldomar Pedrini, do Departamento de Arquitetura. Ele é quem organiza a implantação de um laboratório para certificação das edificações previsto para ser instalado em Natal, o único do Nordeste. Além disso, sua equipe também prepara um site, o Portal da R3E, destinado a difundir a novidade e as boas práticas de arquitetura. “Estamos preparando essas pessoas para montar um laboratório de etiquetagem de edifícios fora da universidade. Será um organismo de inspeção, fiscalizado pelo Inmetro. A etiqueta de eficiência vai reduzir o impacto ambiental do edifício e beneficiar iniciativas como reuso de água, uso de energia renovável e aquecimento de ar”, explica Pedrini.

Já são dois anos de pesquisas na UFRN, mas toda a demanda pela eficiência energética surgiu a partir do apagão no sistema elétrico que ocorreu no Brasil em julho de 2001. O governo federal começou a estabelecer diretrizes para evitar panes semelhantes. Economizar energia foi uma delas. “Antigamente, como não haviam sistemas elétricos nos edifícios e características arquitetônicas que influenciam na eficiência energética dos prédios, sistemas condicionadores de ar e iluminação, os próprios edifícios aproveitavam ao máximo do clima da região onde eram construídos, da iluminação à ventilação natural. Isso dava conforto ao projeto. Só que isso foi perdido com o avanço tecnológico”, relata Natália Queiroz, uma das pesquisadoras envolvidas no projeto. “Hoje em dia existe até a síndrome do edifício doente. Em prédios muito fechados, todo mundo adoece junto por causa do ar-condicionado. Nesses lugares, a qualidade de vida não é boa”, aponta.

Obviamente, os pesquisadores sabem que cada prédio tem suas características que lhe são próprias, e servem a destinos diversos. O prédio da Escola de Ciência e Tecnologia da UFRN, inaugurado em abril de 2011, por exemplo, tem grandes auditórios que são salas de aula, e que utilizam condicionadores de ar, independentemente dos grandes corredores e espaços abertos, uma das principais características do edifício de quatro andares. “Nesse caso, se pensa por exemplo, na ventilação dos corredores”, destacou Aldomar Pedrini. O prédio daETC, idealizado pelo arquiteto e urbanista Sileno Andrade e que ilustra essa página de O Poti/Diário de Natal, é considerado modelo e serviu como uma espécie de projeto-piloto da equipe coordenada por Pedrini. Outro exemplo na capital é a sede administrativa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), dos arquitetos Alexandre Gomes de Oliveira e Haroldo Maranhão.

Mas esses dois prédios, por sinal instalados dentro do Campus Universitário, são talvez os únicos que, hoje avaliados, seriam etiquetados como eficientes e possivelmente ganhariam conceito “A”, como se fossem geladeiras que consomem pouca energia. No caso dos prédios construídos em Natal a equipe de pesquisadores afirma que a maior parte tem problemas por não possuírem características adaptadas ao clima e variações de temperatura da Zona Bioclimática da capital.

“O ideal seria que todos os prédios tivessem grandes coberturas para poder sombrear, e muito contato com o exterior para haver ventilação. Ventilação cruzada, ventilação natural e sombreamento são as características mais importantes do nosso clima. Esses são os critérios mais importantes que um projetista ou arquiteto deveria utilizar num clima quente e úmido como o de Natal para poder ter uma edificação confortável e eficiente”, relata a arquiteta Alice Ruck Drumond Dias, que também colabora com o projeto de etiquetagem eficiente.

Economia de até 40% na conta de energia

Prédios eficientes são também mais baratos de se manter. “Na construção de um edifício assim os custos para construção praticamente são os mesmos de uma edificação tradicional. Mas o custo de operação ao longo da vida útil do edifício, que dura décadas, é mais barato. A fatura mensal de energia poderá ter economia de até 40%”, diz o pesquisador Paolo Américo de Oliveira, arquiteto colaborador do projeto.

No caso das etiquetas já existentes, entidades como Petrobras e Eletrobras premiam os produtos mais eficientes de acordo com a etiquetagem do Inmetro, concedendo, como prêmios, os selos Conpet e Procel. Um estímulo para que o mercado também alcance a excelência.

As etiquetas deverão ser afixadas tanto em prédios antigos quanto nos prédios novos. “Os critérios são os mesmos. O prédio será avaliado pelo projeto e pelo edifício construído, onde é feita a inspeção”, destacou Alice Drumond. “Com relação ao portal, a intenção é interligar as maiores figuras de eficiência energética do país. Como as etiquetas serão obrigatórias, é preciso diminuir as distâncias espaciais e que todos utilizem as mesmas práticas, através de cursos, videoconferências, entre outros métodos”, explica a pesquisadora, Natália Queiroz.

“A eficiência energética é um braço da sustentabilidade, assim como o uso da água. Tem a ver com a vida útil de um edifício inteiro. Tem a ver com seu uso”, destaca ela. “Finalmente se tem um balizador, algo que atesta que seu produto tem qualidade”, completa o professor Aldomar Pedrini. Ele ressalta que já existe interesse do Ministério das Minas e Energias (MME) de que, a partir de 2014, todos os prédios públicos sejam etiquetados. “E isso estimula na construção de novos prédios públicos. Poderá ser um dos critérios da licitação, exigindo do construtor a eficiência energética”. O Brasil tem 20 mil prédios públicos espalhados por todo o território nacional. Caso posto em prática, uma demanda tão alta impulsionaria ainda mais o programa de etiquetagem.

Saiba mais

Aspectos arquitetônicos necessários a um prédio com eficiência energética

– Clima e projeto

– Orientação

– Sombreamento

– Resfriamento passivo

– Aquecimento passivo

– Iluminação natural

– Paredes e cobertas

– Isolamento térmico

– Vidros e janelas

– Simulação computacional

– Instalações prediais

– Sistema de iluminação

– Sistema de condicionamento de ar

– Energias renováveis

– Uso de água

(Fonte: Labcon-UFRN)

Cada um pode fazer sua parte

Não apenas prédios novos podem ser eficientes. Obviamente é difícil modificar o projeto arquitetônico da maior parte das construções já existentes, mas a seu modo, também é possível sim, tornar os condomínios, por exemplo, mais eficientes e sustentáveis. Basta cada um fazer sua parte. Se não for possível por meio da economia de energia elétrica, que seja utilizando técnicas de coleta seletiva e de reaproveitamento de resíduos. Dá até para ganhar dinheiro sendo sustentável, como faz a especialista em meio ambiente Myrian Nardy. Desde 2006, ela implantou em seu condomínio, no bairro de Capim Macio, Zona Sul de Natal, a coleta seletiva condominial. Deu certo. Hoje ela vendeu a ideia e acompanha a implantação do mesmo sistema em outros cinco prédios nas imediações.

A definição clássica da Organização das Nações Unidas (ONU) diz que qualquer coisa é sustentável se for socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente correta. Myrian e sua família fazem sua parte. “Vi potencial grande em um monte de coisa que antes ia para o lixo que não precisavam ir para o lixo”, conta Myrian. E ensina: “Sustentabilidade é conseguir viver com tudo que você tem direito, mas de forma que não se agrida o meio ambiente. Não deixar de fazer o que você quer, mas fazer de forma ecologicamente correta”.

Síndica do prédio por duas vezes, Myrian pensou em tudo, tintim por tintim. No condomínio tudo é ecológico, desde os cartazes afixados nos elevadores até os coletores duplos (orgânico e inorgânico), na porta de cada um dos 22 apartamentos e onze andares do edifício. Também há, nas áreas comuns, coletores divididos por cores. Os resíduos chamados perigosos, como pilhas e baterias, lâmpadas queimadas e óleo de cozinha? Tem um lugar reservado pra eles, separadinhos em caixas de acrílico. Dali seguem para coletores específicos distribuídos nos supermercados da cidade.

Do lixo coletado pelos zeladores nos apartamentos, uma parte segue para reutilização e outra para os quartos de lixo. “A Urbana recolhe normalmente o lixo que não pode ser reaproveitado, e as cooperativas de reciclagem passam para pegar o reciclável. Nós doamos. Só que nem sempre a prefeitura paga o aluguel dos caminhões dessas cooperativas, que são formadas por ex-catadores. Há duas semanas, por exemplo, eles estão sem passar. Dai às vezes a gente é obrigada a jogar tudo fora, descartar mesmo após a separação”, lamenta.

Consumo responsável

O consumismo é um exemplo que Myrian gosta de relatar como possibilidade de colocar em prática a sustentabilidade no dia-a-dia. Comprar muita coisa no supermercado e sair de lá com dezenas e dezenas de sacolas plásticas parece coisa que em pouco tempo será considerada atitude obsoleta.

“As pessoas podem comprar aquelas sacolas chamadas ecobags, que são baratas e servem pra toda vez que você for ao supermercado”, lembra. Myrian, ao invés de comprar, prefere fazer as suas próprias ecobags. E faz isso desenvolvendo um projeto junto a costureiras da cidade. Ela junta banners de eventos, cartazes e outdoors e utilizao material plástico para fazer sacolas. Ficam charmosas e, principalmente, úteis.

Também dá para transformar banners comerciais em porta-documentos. Embalagens de ração para cães e gatos servem, após o uso, como resistentes sacolas de compras. Outra técnica usada pela especialista em meio ambiente é a de colecionar artigos que todo mundo joga no lixo. Óleo de cozinha, caixas de fósforo, rolhas de vinho, tampas de creme dental, caixas de leite. Um toque aqui, outro acolá e pronto. Nas mãos de Myrian tudo isso vira artigos de uso corrente dentro de casa. O óleo se transforma em sabão biodiesel, as bisnagas e caixas UHT se tornam tapumes para revestimento ou telhas de amianto e as caixas e rolhas viram artefatos de decoração. Simples assim.

 

Sobre Dora Brasil Arquitetura, Sustentabilidade e Segurança

Arquiteta e Engenheira de Segurança do Trabalho, com atuação no mercado há trinta anos, direciona seu trabalho à questões de conforto, funcionalidade, eficiência, saúde, segurança, bem estar e preservação do meio ambiente. Esta filosofia vem sendo maturada e está se concretizando com a atualização profissional em Gestão Ambiental com Tecnologias Limpas, Construções Sustentáveis (Conceitos LEED) e certificação PROCEL-Edifica (EtiqEEE - Etiquetagem de Eficiência Energética em Edifícios). Nosso objetivo é levar à sociedade os conceitos de Eficiência, procurando gerar projetos para edificações visando o baixo consumo de energia e água potável, através de diversas soluções alternativas que envolvam o desgaste mínimo dos insumos da natureza e a redução das emissões de gases nocivos ao meio ambiente.
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