Apagando a cultura com incêndios

Foto: Alberto Maraux/SSP

“Um governo totalitário, num futuro incerto, que proíbe os livros por temer que o povo, instruído, se rebele. (…) Porém, num mundo em que ter ideias próprias é considerado crime, seu papel não é o de apagar incêndios, mas o de criá-los: todo e qualquer livro deve ser queimado”. (Bradbury, R., Fahrenheit 451)

Uma simples associação de ideias surgiu logo após a trágica destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que silenciou, em questão de horas, a memória de séculos de história e ciência, do Brasil e do mundo. O principal berço da cultura do país, além de peças de valor inestimável para a humanidade, sucumbiu sob as chamas, por incontestável descaso do governo federal, responsável pelo provimento dos meios de manutenção das condições de segurança e integridade daquela edificação.

Em situação semelhante de abandono e insegurança, estão os casarões do Centro Histórico de Salvador. Por sinal, pouco mais de 24 horas após a destruição do Museu Nacional pelo fogo, um casarão na Baixa dos Sapateiros foi consumido pelas chamas, colocando em risco os imóveis e moradores do entorno.

Patrimônio Mundial declarado pela UNESCO em 1985, este sítio histórico sofre igualmente  com o descuido do governo federal, que negligencia os verdadeiros bens, conquistados há séculos, e que traduzem a história de um povo.

Não apenas a falta de repasse de verbas do governo federal para a preservação do sítio histórico, mas a própria ausência de cuidado, pelos gestores municipais, com o uso do solo naquele centro urbano, onde atividades são desenvolvidas sem critérios específicos de segurança contra incêndio, o seu maior vilão. Tanto no que tange às medidas de proteção passiva  (resistência estrutural ao fogo, instalações inadequadas, fiscalização e controle das atividades ali desenvolvidas, meios de fuga) e ativa (dispositivos de prevenção e combate ao fogo) a omissão do poder público é evidente. Ainda mais intrigante é a atuação do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que, sob o discurso da “preservação” do patrimônio histórico e cultural, restringe intervenções de segurança que visam unicamente a preservação da vida e dos imóveis envolvidos.

O texto do Bradbury nos remete a uma lamentável constatação de que vivemos, há muito tempo, sob a égide de gestores descompromissados com os valores culturais mais profundos, relegando ao enésimo plano o acervo que remete gerações ao conhecimento mais profundo de suas origens.

Estamos vivendo momentos de pesar ao observarmos o que tem sido comemorado e enaltecido como “cultura” no Brasil,  fruto de fisiologismo e descompostura.

Vamos salvar nossos livros, para que não chegue o dia em que as fogueiras venham a ser os acervos literários que ainda preservamos dentro de casa. Não raro acreditar no medo de alguns em pensar que a literatura liberta da escravidão que a ignorância proporciona, desgarrando “ovelhas” até então fiéis ao lugar comum de uma sociedade burra.

DB

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